Sombra do passado
Fui um dia semente robusta,
nutrida, jogada num sulco
a germinar...
Nasci, cresci, reproduzi-me,
tive tronco torneado,
galhos nutridos, flores que embelezaram
e perfumaram...
Frutos que alimentaram, mataram a fome
de viajantes famintos e fatigados,
que por mim passaram.
Minha copa frondosa foi palco para
centenas de milhares de passarinhos
que se refestelaram e se refrescaram
no calor implacável
do verão cada vez mais quente.
As avezinhas encontraram em minhas folhagens
o porto seguro, o lugar perfeito
para se acasalarem
e abrigar seus filhotes bem longe
dos predadores.
Eu ficava toda boba e orgulhosa
quando dezenas de crianças brincavam
de pega-pega em volta
de meu tronco, com suas alegrias e
algazarras, eu me derretia toda!
Pela ação da clorofila
realizei a fotossíntese,
para que o meio ambiente oferecesse
qualidade de vida através do ar puro e fresco.
Hoje, a ganância dos homens
desprovidos de sensibilidade e amor à vida
e munidos de uma motosserra,
pôs fim a minha majestosa carreira.
Me fizeram sangrar da cabeça aos pés
e me deixaram ao relento, banhada em lágrimas
e me contorcendo de dores terríveis...
Sou apenas um resto do muito que fui,
sem nenhuma importância ou utilidade.
Sou sombra do passado
abandonada à ação da natureza
e dos homens que removerão os restos de minhas pobres,
apodrecidas e inúteis raízes.