Aparecida Ramos -  Prosa e Verso

Apenas palavras que a alma e o coração não calam.

Textos



Retalhos x palavras
 
 
A vida é feita de memórias; o amor também. E é nessa vida cheia de complexidade que nós, enquanto protagonistas vamos catando, juntando e colecionando pequenos retalhos de cores, texturas e tramas diversas, e vamos fazendo as adaptações necessárias, alinhavando e costurando ao longo da existência. Cada retalho, naturalmente, tem sua função na obra a ser concretizada.  Um recorte aqui, um encaixe acolá, e no fim todos acabam sendo úteis. Aprendi que a vida se assemelha a uma imensa e interminável colcha de retalhos, desde quando, ainda menina, minha mãe e minha avó me ensinaram a arte de escolher, selecionar, tecer, costurar retalhos. Obviamente, eu não ia iniciar cortando as peças de tecido, mas sim os retalhos, por não haver nenhum risco de vir a perder alguma peça de roupa.
 
Com as palavras também é sensato investigar e apreciar a beleza semântica de cada uma delas. Dessa forma vamos construir com mais sabedoria e elegância o tecido para a obra que nos apraz. Palavras diferentes, de tamanhos, significados, cores, sentimentos, sons e texturas distintas vão sendo colhidas, apanhadas, garimpadas, encaixadas e costuradas nas formas mais diversas. Assim se constroem as prosas, os versos e, por vezes, se transformam em poemas. Dependendo da maneira como as palavras vão sendo alinhavadas no papel ou na telinha, vamos (nós e nossos leitores) poder apreciar o resultado de nosso esforço e dedicação com mais prazer e satisfação.
 
Foi da junção dos retalho com as palavras que me tornei um ser. Meu pai era garimpeiro, catador, colecionador de palavras e “fazedor” de versos, canções, poemas, cordéis, etc. Ele foi o artista da palavra declamada, rimada e cantada, por “excelência”, reconhecido não por mim que era tão somente uma criança, aos 11 anos, mas pela sociedade daquele tempo.

Cedo, ainda adolescente, aos dezessete anos, Fernando se apaixonou por Helena, que tinha apenas 15 anos; uma costureira, vindo com o tempo a se revelar “mãos de fada” nesse ofício de tecer e costurar retalhos, e ainda o faz tão bem, atualmente! 

Filhos de Estados diferentes, porém da mesma Região, após dois anos de namoro se casaram. E dessa união entre os retalhos e as palavras, eu e meus três irmãos viemos ao mundo.

Termos consciência de nossas origens e da importância e relevância de nosso papel no mundo é fundamental. A realidade é que, para ser quem somos e para chegar onde chegamos, precisamos contar com uma gama imensurável de pessoas que, de uma forma ou de outra deram sua contribuição na construção da colcha de retalhos (interminável) ou do poema (sempre inacabado) que nos tornamos. Nossos defeitos podem ser comparados aos retalhos de tramas e texturas inferiores ou cores sem graça que, em meio às emendas, não nos agradam e, logo pensamos em substituir, ou às palavras desajeitadas, deselegantes que, em meio à construção de um poema ou de uma prosa, precisam ser substituídas.
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Cada retalho e cada palavra representam uma diminuta partícula ou uma célula no tecido ou na poesia de nossa existência. Termos a possibilidade de substituir retalhos e palavras no momento da montagem de nossa obra, significa também oportunidade para avaliarmos quem somos, como estamos e o que estamos fazendo de nós mesmos. Que possamos ser vigilantes, observadores de nossos defeitos, aqueles que precisam (possivelmente) ser mudados, quem sabe, permitindo que alguém de nossa confiança possa nos acrescentar alguns retalhos mais coloridos ou palavras mais significativas e assim, nossa vida se torne mais exitosa.
 
Que nossa alma jamais se canse de receber "reparos" em forma de novos retalhos ou novas palavras!
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Ísis Dumont
Enviado por Ísis Dumont em 14/09/2019
Alterado em 14/09/2019
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