Ísis Dumont -  Prosa e Verso

Apenas palavras que a alma e o coração não calam.

Textos



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Menino perdido


 
No começo, entusiasmo com a descoberta. Visitava e comentava diariamente, principalmente poesias. Leitor assíduo. Dava a impressão de que apreciava e sentia-se bem com as leituras... Certa vez, afirmou (sobre as poesias em minha Escrivaninha) que estava se sentindo como alguém que encontra um “oásis”.

Não foi difícil perceber determinadas “dificuldades” em sua escrita. Às vezes, palavras em frases “desconexas” sinalizavam a existência de algum distúrbio. Passou a escrever e-mails com certa frequência, inclusive mais de um por dia ou durante a madrugada, eu prestava atenção na hora que escrevia. 

Mensagens escritas sob forte emoção ou tensão, dificultavam a compreensão. Frases que pareciam querer dizer algo que não ficava claro. Outras vezes, totalmente sem sentido. Falava de sua vida, que enveredara por caminhos errados, de situações que o levaram a perder o emprego e... mais que isso: perdera esposa e filhos. Ela havia se vingado de uma traição no passado.
Morava sozinho em um apartamento da família. Apenas um irmão o visitava a cada 15 dias, a fim de trazer-lhe “mantimentos” para que pudesse continuar sobrevivendo... longe de tudo e de todos. Dependente de medicamentos fortes. Vivia isolado do mundo lá fora. Há quase um ano não saía para nenhum lugar.

Perdera também todos os amigos. Os pais já haviam falecido quando o mesmo ainda era adolescente. Lembro que uma vez falara com muita tristeza, de uma irmão que perdera, ainda adolescente. Dizia que se sentia culpado pela morte da mesma. Eram cartas bastante comoventes, algumas “desesperadoras”. Dava, sim, para acreditar que vivia um dos piores dramas. Segundo suas mensagens, tinha pesadelos horríveis. Assombrações, pânico, perseguição, alucinações, tudo isso fazia parte do seu mundo solitário e obscuro. Confesso que muitas vezes chorei lendo e sentindo as dores de sua alma, parecia que o conhecia pessoalmente. Respondia as mensagens, enviando-lhe palavras de ânimo, de incentivo para que não se entregasse ao desespero, mas lutasse pela vida... Mas acho que não suportou sozinho o enorme peso daquele fardo terrível.

Lembro de como falava da dor maior por ter perdido o amor dos filhos, a convivência. Dizia que não gostaria de ser uma referência ruim para eles. Depois, já não mais escrevia... Penso que enlouqueceu ou quem sabe... cometeu suicídio.
Meu "amigo" desconhecido era apenas mais um "menino perdido", pedindo "socorro", perdido pela família, perdido para o trabalho, perdido na vida, como centenas de milhares ou milhões por esse mundo afora.

Mas... o menino perdido morava por aqui, porque também era poeta... perdido das letras.

Reservo-me ao direito de não revelar seu codinome.


Isis Dumont

 
Nana, querida amiga, trata-se de inspiração em um fato real, infelizmente. Um dos últimos e-mails que me escreveu dizia que lamentava por não ter mais condições de continuar no RL, e que era a segunda vez que isso acontecia. Dizia estar sendo perseguido por alguém "daqui". Não sei se era verdade ou se era fruto de suas alucinações. Depois que retirou sua página, também parou de escrever em meu contato. Suas últimas mensagens nem consegui ler, pareciam em outro idioma que nem sei qual seria.

 
Bom dia!!!!

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Aparecida Ramos(Ísis Dumont)
Enviado por Aparecida Ramos(Ísis Dumont) em 22/10/2013
Alterado em 31/10/2013
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